
A provável escolha do inglês Lewis Hamilton para ser o companheiro de equipe de Fernando Alonso na McLaren enfim quebrou o pior dos tabus da categoria máxima do esporte a motor no mundo: o de nunca ter tido um piloto negro. Se confirmada a contratação do inglês, ele será o primeiro afro-descendente dos cinqüenta e seis anos de história da Fórmula 1.
E são justamente essas barreiras impostas pelo preconceito o assunto que o texto de hoje apresenta. Dessa vez, o tema é tão polêmico quanto o que tem Hamilton como centro das discussões. Assunto este que até hoje espanta muitos fãs de automobilismo: A presença de mulheres nas pistas.
No final da década de 30, a francesa Mariette Hélène Delangle, mais conhecida como
Hellé Nice, causava furor nos Grand Prix disputados ao redor do mundo por mostrar sua feminilidade e ousadia em um mundo tão masculinizado como era o do automobilismo. Impressionou e escandalizou a opinião pública quando apareceu no Brasil em 1936, quando apareceu para disputar os GPs da Gávea (Rio) e Jardim América (São Paulo) - para vocês verem como ela marcou época aqui, é só lembrar a quantidade de mulheres que nasceram nos anos 30 e 40, e se chamam Helenice. Mas o feito mais corajoso dessa francesa foi ter corrido contra gênios de sua época como Tazio Nuvolari, Rudolf Caracciola, Bernd Rosemeyer e Achille Varzi, entre outros. Hellé Nice morreria em 1984, aos 84 anos, sozinha e anônima, graças a uma suposta acusação de colaboracionismo com o exército nazista alemão.
Nos anos 50, já na F1, a italiana
Maria Teresa de Fillippis correu em alguns GPs, chamando atenção mais pelo fato de ser mulher, do que pelos seus resultados.
Em 1975, acontece o que muitos julgavam impossível: em meio a confusão que se tornara o GP da Espanha, no Parque Montjuïch, em Barcelona, a italiana Maria della Grazie Lombardi, mais conhecida como
Lella Lombardi, da March, chega em 6º lugar e soma meio (0,5) ponto - como a corrida terminou com menos da metade de voltas previstas, os pontos foram descontados em 50% (o vencedor da corrida, o alemão Jochen Mass, somou 4,5 pontos ao invés dos 9 normalmente dados ao vencedor). A italiana também carrega outro recorde: foi a piloto com o nº de inscrição mais alto (208). Lella morreu de câncer aos 46 anos, em 1992.
Ainda nos anos 70, outras duas damas dão as caras no circo: a inglesa
Divina Galica (além dela, só o mexicano Moisés Solana usou o temido nº13) e a sul-africana
Desiré Wilson. Porém, ambas falham em se classificar para as corridas.
Em 1992, a italiana
Giovanna Amati reacende nos fãs a curiosidade de ver uma mulher a bordo de um F1, com sua personalidade forte. Mas após três não-qualificações (em Kyalami, África do Sul; Cidade do México, México; e Interlagos, Brasil), a Brabham a dispensa e chama o inglês Damon Hill para substituí-la - após o GP da Alemanha (Hockenheim), a equipe dos dois primeiros títulos de Nelson Piquet fecha as portas.
As últimas mulheres a terem pilotado um bólido da categoria máxima do automobilismo foram a americana
Sarah Fisher (em um evento promocional da McLaren-Mercedes em Indianapolis, 2001) e a inglesa
Katherine Legge (no último teste da Minardi, em Vallelunga, na Itália, no ano passado).
Sarah foi a primeira mulher a fazer uma pole em uma corrida da Indy Racing League (IRL) e atualmente, corre na Busch Series, uma espécie de segunda divisão da NASCAR, a famigerada Stock Car americana.
Katherine, por sua vez, foi a primeira mulher a vencer uma corrida da F-Atlantic (categoria de acesso à ChampCar) e neste ano, corre na ChampCar (pejorativamente chamada de F-Mundial no Brasil) pela equipe PKV. Chamou atenção na mídia após um acidente na corrida de Elkhart Lake, onde o carro foi destroçado e a célula de sobrevivência capotou várias vezes, em um acidente semelhante ao que matou o canadense Greg Moore em 1999. Felizmente, o impacto teve como única conseqüência um corte no joelho, que arrancou um comentário irônico da inglesa: "Não gostei do curativo. Não combina com a cor do vestido que costumo usar para sair".
Falando em IRL, uma piloto que tem chamado atenção (verdade seja dita, mais pelo marketing do que pelos resultados que obtém na pista) é a também americana
Danica Patrick. Propagandas e frisson à parte, Danica já obteve duas poles na carreira e tem como maior feito um 4º lugar nas 500 milhas de Indianapolis, mais comentado até do que a vitória do inglês Dan Wheldon, na mesma corrida.
Ainda na terra do Tio Sam, temos a venezuelana
Milka Duno correndo na ALMS (American Le Mans Series, uma categoria de endurance disputados por carros estilo esporte-protótipo), também chamando a atenção por obter destaque na pista.
Voltando à Europa, falemos da mais famosa categoria de carros de turismo do continente, a DTM (Deutsche Touring Meisterschaft - campeonato alemão de turismo). Nessa categoria temos duas representantes do sexo feminino: Tratam-se da escocesa
Susie Stoddart, que apesar do sobrenome, não tem parentesco com o ex-dono da Minardi, o australiano Paul Stoddart; e a belga
Vanina Ickx, filha do duas vezes vice-campeão de F1 e seis vezes campeão das 24h de Le Mans, Jacky Ickx. Susie e Vanina, aliás, são as únicas mulheres que correm com um carro de uma das duas marcas do certame - a escocesa pilota para a Mercedes, enquanto a belga corre com um Audi.
E para fechar o grupo de mulheres estrangeiras no automobilismo, completo com a japonesa
Keiko Ihara, que corre na F3 Inglesa, mas até agora não conseguiu resultados de grande expressão.
Aqui no Brasil, a pioneira foi a carioca
Suzane Carvalho, que conquistou títulos no Kart e chegou a correr na Indy Lights (categoria de acesso da antiga Fórmula Indy), mas com falta de patrocinadores, voltou ao Brasil e passou a se dedicar à carreira de atriz.
Na Fórmula Truck, a representante do "Sexo Frágil" (que de frágil não tem absolutamente nada) é a paulista
Débora Rodrigues (sim, ela mesmo, ex-musa do MST e ex-capa da Playboy), que até agora, só conquistou dois pódios, e nunca teve um destaque muito grande na categoria.
Na Stock Car Light, a divisão de acesso à principal categoria do automobilismo nacional, a representante feminina é a paulista
Fernanda Parra, que este ano faz sua estréia na Stock Light, tentando aparecer no cenário nacional.
Por fim, e não menos importante, falemos de Ana Beatriz Caselato Gomes de Figueiredo, ou simplesmente
Bia Figueiredo.
Essa paulista de 21 anos que saiu de Taboão da Serra vem assombrando o Brasil com uma técnica arrojada e uma coragem de dar inveja a muitos marmanjos, desde os tempos do Kart. E sou testemunha de suas peripécias, ainda que via satélite, na F-Renault. Lembro que estava assistindo uma corrida quando fiquei estupefato com o estilo de pilotagem "do" número 10, quando eu perguntei a meu pai quem era "o cara do carro nº 10". Ele me respondeu que não era "o" nº10, e sim, "a" nº10, pois se tratava da Bia. Desde então passei a torcer por ela em todas as corridas da F-Renault. Vibrei como um louco no dia em que ela conseguiu sua primeira vitória, em Campo Grande (Mato Grosso do Sul), e achei uma injustiça o fato de ela não ter sido campeã daquela temporada de 2005 (é claro, sem tirar os méritos de Nelson Merlo, campeão naquela oportunidade). Estou acompanhando a temporada deste ano da F3 Sul-Americana (onde Bia corre atualmente), e claro, torcendo, como fã que sou. E ainda lhes digo mais: Bia tem grandes chances de se tornar a primeira mulher a vencer uma corrida ou até ser campeã mundial na F1, pois talento, competência, dedicação e sorte não lhe faltam.
Todas essas mulheres são vencedoras por vencer o preconceito e conseguir seu lugar ao Sol (ainda que apertado) no sempre machista mundo do automobilismo.
Afinal de contas, se Deus criou algum ser mais belo que a mulher, guardou só para ele.
Foto: Bia Figueiredo em ação durante a corrida da F-Renault Brasileira que foi preliminar do GP do Brasil de F1, em 2005 (autoria de Fernanda Freixosa).